Qualquer bom manual de criatividade, como o clássico O caminho do artista, vai recomendar que você desapegue por um tempo do trabalho, vá passear, conferir uma exposição, caminhar, ir ao cinema. Um tempo desgrudada da tela é muito bom para criar coisas diferentes. No caso da Lavanda, que trabalha com redes sociais e produtos digitais, conseguimos ver que as melhores ideias não vêm do próprio feed.
Na nossa última reunião, conversamos um pouco sobre isso. Eu, quando entro em crise e não consigo mais escrever, preciso dar uma corridinha ou só me deitar olhando para o teto. Tem gente que se encontra na malhação pesada, na jardinagem, na cozinha, no tricô. Então pensa como eu fiquei feliz quando misturei um convite para a pré-abertura da Bienal de Arte de Veneza a um feriado emendado e quatro dias sem precisar entregar nenhum trabalho. Teoricamente.
Peguei um trem, um ônibus e um barco para ver a mostra ‘Com o coração saindo pela boca’, de Jonathas de Andrade, no pavilhão brasileiro. Em todos os caminhos, tentei me colocar em dia com os episódios de podcast que eu tinha atrasados. Aproveitei o trem de Milão a Veneza para ler mais sobre esta edição da Bienal. Vi todos os stories do artista. Peguei o mapa do evento e fui ticando à caneta as mostras que eu já tinha visto. Todas elas dentro de um plano traçado para ver o máximo de obras no pouco tempo que eu tinha.
Fiz fotos e vídeos do que mais me chamava a atenção e fui postando nos stories, marcando as pessoas interessadas, respondendo DMs, entre elas uma que pedia uma cobertura em tempo real do evento. Quatro stories depois e eu percebi que tinha deixado as demandas de trabalho para trás, mas que tinha levado comigo uma lógica que nos acompanhou nos últimos anos pandêmicos: a necessidade de respostas imediatas a todos, a ideia de que temos que consumir tudo o que há de disponível de conteúdo que nos interessa sob pena de cair no tal do FOMO, um termo pomposo pro medo de ficar por fora. Por algumas horas, eu não estava apenas indo à Bienal de Arte de Veneza – que é incrível e que parece muito chique toda vez que escrevo. Eu estava levando meu avatar para passear comigo.
Como se o evento fosse um feed infinito sem um algoritmo para apontar o que combinasse mais com os meus interesses. E, já que eu estava neste lugar lindo e exclusivo, eu tinha de mostrar para todo mundo, talvez fazer um reels “que entrega melhor” e ainda bater meu ponto em todas as mostras dos dois endereços da primeira bienal (supostamente) pós-pandêmica de Veneza.
Ainda bem que eu demorei só quatro stories para me pegar no flagra desta lógica tóxica na qual a gente caiu e segue reproduzindo mesmo quando acha que se desligou dela. Também sou grata à necessidade de economizar bateria para garantir um Google Maps que me apoiasse no caminho de volta.
A recusa de levar meu avatar comigo fez com que eu passasse um tempo vendo o coração do Jonathas inflando e desinflando no meio do pavilhão do Brasil. Tirar a cara do celular também me ajudou a fazer uma nova amiga italiana, com quem eu dividi impressões sobre o que foi possível visitar naquele dia. A gente nem se segue nas redes sociais e meu conteúdo em tempo real daquele momento chegou até ela. Não foi o “para você” do TikTok que me entregou um almoço agradável com dois proprietários de galeria bargamascos que eu nunca tinha visto antes, mas que durou duas horas e, por isso, não consegui ver a exposição do pavilhão da França nem do Reino Unido. Paciência.
Na volta para casa, durante a nossa reunião de pauta semanal da Lavanda, comentei sobre essa impressão, de carregar a lógica tóxica da internet comigo para o mundo lá fora. Algumas de nós se sentem mal de não viajar quando todo o feed o mundo parece estar em Paris. Fiquei me perguntando se alguém se sentiu assim vendo meus quatro stories. Bom, paciência também.
A internet é incrível e segurou nossa barra esse tempo todo. Nos manteve vivos, conectados, rindo, “scrollando” infinitamente para esquecer o mundo lá fora, trocando ideias, criando coisas novas, fofocando. Agora, quando parece que saímos do outro lado com a permissão de observarmos outros mundos, podemos também nos permitir rever regras que nem sabemos de onde saíram. Escolher.
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Esta newsletter teria chegado antes se fosse escrita neste café do Japão (e não no meu sofá)
Para o seu momento de descanso
Para ler com calma
Este ensaio da Lena Dunham depois de 10 anos de Girls.
O perfil que Julián Fuks escreveu de Lygia Fagundes Telles e guardou por 15 anos.
O novo livro da Rachel Cusk.
Também escrevi sobre a experiência em Veneza no meu Substack.
Para assistir em família
O filme Metal Lords, na Netflix.
A animação Red: Crescer é uma Fera na Disney+.
O carnaval Bruttal do Irmão do Jorel na HBO Max.
Coisa de adulto
A série Our Flag Means Death, da HBO Max.
A segunda temporada de Russian Doll na Netflix.
Para ouvir
O podcast Smartless.
O podcast Crime e Castigo, da Rádio Novelo.
O podcast Mano a Mano.
O Spotify criou um sistema que gera playlists com músicas que pets (supostamente) gostam.
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